Assembleia Legislativa

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Artigo do Edson Vidigal: Condecorações à Venda

A ursa maior da noite começa a derramar trevas trazendo noite a Moscou. É quando as avenidas se esvaziando do rush de fins de tarde aos poucos parecem acolher silêncios, mas qual nada, o sossego é aparente.

Nessas avenidas um tanto compridas, que nem se imagina onde irão terminar, não há faixas especiais para pedestres. Há passagens subterrâneas.

A noite vai se firmando em penumbras e os automóveis com seus motores e escapamentos assustadores em seus tons diversos transmudam as avenidas em autopistas.

Num degrau um pouco acima do chão da escadaria de onde é possível avistar iluminado Teatro Bolshoi, um homem exibe medalhas antigas numa toalha.  A entonação da sua voz é mais de pedinte que de vendedor.

Que histórias estão ali condensadas? Quais feitos patrióticos? Quais serviços prestados ao Estado soviético? Aquelas medalhas, e não são tantas, estamparam orgulhos, estufaram egos de quantos camaradas? Ou aquelas sínteses, reflexos de bons feitos, seriam pedaços da vida daquele homem?

A idade que o homem das medalhas aparentava e o seu ar sofrido realçando lhe a barba descuidada, branca à lá Dostoiévski, faziam-lhe parecer algum rascunho de alguém saído de alguma trama, talvez do romance de Tolstói – Guerra e Paz.

Algum veterano, mas de qual guerra? O certo mesmo é que tendo sido as medalhas conferidas ou não a ele, a única razão de estar ali aquele homem e suas poucas medalhas, se resume a uma condição de extrema necessidade.

Se ele era um mendigo, sob o manto invisível da noite, foi o único que vi em Moscou nesta temporada. O que não posso dizer quanto a putas. Nossa mãe, como despontavam óbvias nas lanchonetes dos calçadões ou em desfiles tão ululantes  pelas entranhas dos hotéis. Sem abordagens constrangedoras como as de Las Vegas.

Cercado por grades de ferro, o Bolshoi é mantido a longa distância de quem passa. Nesta noite Putin está lá com os Presidentes da França e da Croácia, que assistirão amanhã a finalíssima da Copa do Mundo entre as seleções de seus países. Câmeras de TV são mantidas do lado de fora.

Nas avenidas de menor movimento, a liberdade se espraia pelas calçadas ou lá dentro dos inferninhos entre copos e bocas, amassos e beijos.

A juventude russa em Moscou tem seus carrões – BMW, Mercedes, Toyota, Honda, símbolos do capitalismo chegante mais fáceis de identificar.

Sabe o Lada, aquele automóvel que por algum tempo fez brilhar os olhares coçando os bolsos da esquerda brasileira? O Fernando Henrique, então Ministro da Fazenda do Itamar, tinha um, cor vermelha, em Brasília, na garagem da SQS 309, a quadra dos Senadores.

Embalado pelos ótimos ventos do Plano Real, que ele coordenara à frente da mais brilhante equipe econômica jamais recrutada, o Fernando, já àquele tempo começando a ser o FHC, saiu candidato a Presidente da República para suceder ao Itamar. Ganhou do Lula logo no primeiro turno.

Fora do Ministério e decidido a não usar, enquanto candidato, carro oficial, foi à garagem pegar o seu Lada, o carro russo, vermelho. Chave no contato, ió-ió-ió... E nada do Lada pegar. Ió-ió-ió, nada. O homem queria começar sua arrancada para a Presidência dirigindo o seu Lada. Saiu da garagem empurrado. La fora, pegou no tranco. Que nem banda de rock.

A Lada russa agora reduziu a sua produção em 44%. Está difícil para o urso competir com o touro de Wall Street. Estou sabendo agora que a Renault, em sua montadora de Curitiba, vai lançar no mercado brasileiro, a preço camarada, o Lada clássico em seu modelo soviético.

Ah, quanto às medalhas, as condecorações do antigo império soviético, agora se pode comprá-las no grau que se quiser no Mercado Livre, pela internet.

(Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal. Esteve em Moscou recentemente)

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