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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Artigo do Edson Vidigal: O Direito de Dizer

Paulo Henrique Amorim chegou em casa ontem à noite, no Rio de Janeiro, pouco depois de um jantar com amigos num restaurante. Coisa que ele apreciava fazer.

A última vez que nos vimos foi num restaurante de comidas italianas em São Paulo. À mesa estavam ainda o Luiz Gonzaga Beluzzo e o Professor César Kouri, advogado de Paulo Henrique.

Foi quando fiquei sabendo que o Beluzzo, ex-Presidente do Palmeiras, antes de seguir pelas sendas da economia cursara Direito na Faculdade do Largo de São Francisco.

Ninguém falou da conjuntura política. Falamos de futebol e também de Renato Archer, um dos mais brilhantes homens públicos da sua geração, por quem Paulo Henrique nutria grande respeito e admiração.

Até combinamos uma Semana Renato Archer no Maranhão, ideia que em lá chegando se esvaiu na correnteza dos adiamentos empurrados pelas barrigas de poderosas agendas locais.

Convivi com Paulo Henrique quando Mino Carta montava a primeira redação da Veja, em São Paulo.

Tempos depois nos reencontramos no Jornal do Brasil, onde ele sucedeu ao grande Walter Fontoura.

Àquela altura, eu estava em dúvida se, após um mandato bem sucedido na Câmara dos Deputados, eu deveria retornar ao JB ou seguir a nova profissão para a qual, após concluído o curso de Direito na UnB, já me credenciara na OAB-DF.

Luiz Orlando Carneiro, um dos mais queridos chefes de redação do jornal, me aconselhando a ficar, sugeriu que fosse à sede do JB no Rio.

Havia a chance de eu ir para a Editoria de Política e em seguida, quem sabe... Élio Gáspari, então chefe, estava deixando o jornal. O Walter também. Era certa a escalada de Paulo Henrique à editoria geral.

Fui sempre agradecido a Paulo Henrique Amorim pelo chá que, antes de me receber, mandou me servir na ante-sala. Chá de cidreira, um calmante, que por mais de duas horas se transmudou em chá de cadeira.

Vendo pela parede de vidro, o Paulo Henrique tenso, inquieto, ocupadíssimo, naquela jaula de vidro, antevia que o meu futuro não era aquilo ali.

Com alguma insistência, o meu Anjo da Guarda segredou-me quase ordenando - sai dessa, Vidiga.

Num almoço no Fritz, em Brasília, não escondi do Luiz Orlando o meu novo entusiasmo.

Abracei com toda as forças da minha vontade defender o primeiro Governador  do Espirito Santo, eleito pelo voto direto após 1964, Gerson Camata, denunciado pelo Procurador Geral da República por crime contra a segurança nacional e, por isso, ameaçado de nem ser empossado.

O demais desse capítulo provou-me que eu optara pelo caminho certo. Desistindo, encontrara, enfim, a minha Estrada de Damasco.

Anos depois, reencontrei  Paulo Henrique no estúdio do seu programa na TV Record onde fui o entrevistado. Anos e anos depois nos reencontramos na cafeteria do Hospital Sírio Libanês.  Ambos em agendas de resultados nem sempre bem vindas.

Aprendi muito cedo a conviver com os contrários.

Recusando-me a beber no cálice da intolerância, sigo praticando aquela máxima de Voltaire -  “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante teu direito de dizê-la.” Minha ligação com Paulo Henrique Amorim, meu ex-colega das redações de Veja e do Jornal do Brasil, sempre foi assim.

(Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal)

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