Assembleia Legislativa

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Artigo do Edson Vidigal: A águia bicéfala

Símbolo da identidade nacional, a águia russa tem duas cabeças. A águia americana e a águia alemã têm dois olhos cada e uma só cabeça.

Na mitologia grega, é associada a Júpiter, o maioral do Olimpo. E lá, águia única, conhecida apenas como Fênix, incinerada num grande incêndio, mostrou-se capaz de ressuscitar das próprias cinzas.

Isso de águia de duas cabeças foi coisa saída da cabeça dos romanos. Não podendo grelarem um olho no padre e o outro na missa, quero dizer, segurar ao mesmo tempo o seu império sobre os povos do ocidente e do oriente, inventaram então a águia bicéfala.

Os povos colonizados nunca tinham visto aquilo e, claro, morriam de medo. Se uma águia com apenas dois olhos, como a grega do Olimpo, tinha tanto carisma, um olhar perspicaz com que encarava o sol de frente, irradiando força, inteligência, temeridade e poder, pensem então aí, seus bestas, numa águia com quatro olhos e duas cabeças.

A águia de César, esculturada em ouro ao topo de um grande cetro, - e ele não se largava dela nem para dormir nos acampamentos durante as guerras – tinham, sim, duas cabeças, uma com olhar sobre Roma, a oeste, e a outra com o olhar grudado em Bizâncio, a leste.

A águia bicéfala, símbolo da identidade nacional da Rússia, e data de mais de um milênio, referenda num carimbo do Banco Central a cédula de 1.000 (mil) rublos. Do mesmo tamanho em largura e altura da nossa cédula de real.

Aquieto o olhar me admirando do que estou vendo. Na extremidade, em cima, a figura de um urso polar em marcha, carregando no ombro uma arma de época mais remota, talvez aquela machadinha de cabo longo dos filmes de guerras antigas.

Entre esses dois símbolos nacionais da Rússia, no centro à direita, São Basílio e no verso da cédula, a famosa Catedral do propriamente dito.

Impressiona-me a mensagem da cédula de 1.000 (mil) rublos. A fé religiosa que o poder do Estado soviético intentou, por décadas, arrancar do espirito das pessoas, desponta ali rediviva em forte aliança entre o Kremlin e a Igreja Cristã Ortodoxa.

Retiro da carteira do passaporte uma cédula de 100 (cem) reais. Se parecem, nas cores. No mais, afora o valor monetário, eis que a unidade do real brasileiro vale muito, mas muito mais que um rublo russo, o meu olhar não se admira com o que é mostrado na cédula brasileira à guisa de símbolo nacional.

O que é mostrado em nossa cédula de 100 (cem) reais em nada reflete simbolismo algum da nossa verdadeira identidade nacional, ainda bem.

Ora, ó meu, é impossível se orgulhar com a cara de uma mulher que, além de feiosa tem os olhos cegados, um par de lábios trancados, inúteis, exalando um sentimento nada a ver com a alma do Brasil.

No verso da cédula de 100 (cem) reais, um peixe nadando com a identificação – garoupa. E uma bobagem de autógrafos do Ministro da Fazenda e do Presidente do Banco Central como que a darem credibilidade ao dinheiro.

A credibilidade do rublo russo é legitimada pela águia de duas cabeças num carimbo do Banco Central da República. E na figura do urso polar guerreiro com sua machadinha de cabo longo.

“Os canhões, a quem podem assustar agora? / esses aí, tão ternos / seriam capazes de destruir?” (...) “Escutai, pois! Se as estrelas se acendem / é porque alguém precisa delas. / É porque, em verdade, é indispensável / que sobre todos os tetos, cada noite, / uma única estrela, pelo menos, se alumie”.

(Vladimir Maiakóvski, poeta russo).

(Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal)

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